Onde o amor se perdeu?

Somos seres incompletos, “quebrados”. A união de nossas almas e corpos seria a forma de nos completarmos. Assim era o pensamento de Platão sobre o Amor. Assim era a definição de um sentimento que hoje é quase um insulto.

onde o amor se perdeu?

 

Na Grécia antiga, a relação entre homens era constante. Isso é inegável. Entretanto, muitos ainda tendem a assemelhar tal relação na antiguidade com homossexualidade contemporâneo ou algo vulgar, visto que a relação era mais presente entre mestre e aprendiz. Naquela época a relação era pedagógica, e antes de tudo uma declaração da importância do amor, sem distinção de sexualidade. O amor era livre.

Na antiguidade, no medievo e até em uma parte da modernidade, o amor ocupou uma preocupação na mente e na vida das pessoas. Mas, na contemporaneidade, alguém já parou para pensar nesse sentimento? Estamos na era da informação, as coisas passam muito rápido por nós. Algo surge hoje e amanhã já está em desuso; obsolescência programada? Também estamos fazendo isso com as pessoas?

onde o amor se perdeu?

 

Na atualidade, ao que tudo indica, a palavra denota um insulto se alguém a proferir. E o sentimento que dela outrora teve nas pessoas secou com o tempo. Muitas foram as canções feitas sobre o amor, muitos foram os filmes e peças de teatro. Mesmo que não tenham sido extintas, seu número é quase insignificante se comparado a outros momentos. É claro que as épocas mudam e as pessoas, com ela, se acostumam. O que  nos causa espanto é a facilidade com que isso acontece e a vontade de aceitação. Ninguém nada contra a maré, mas podemos escolher não nadar.

O Banquete de Platão é sem sombra de dúvidas um dos maiores estudos sobre o amor. Esses textos, juntamente com um texto bíblico, são grandes tesouros sobre o tema, para os que desejam estudá-los ou simplesmente para os que possuem curiosidade acerca do tema. Uma das falas mais belas do Banquete é a de Aristófanes, vejamos um trecho:

Em primeiro lugar, três eram os gêneros da humanidade, não como agora, o
masculino e o feminino, mas também havia mais um terceiro, comum a estes dois,
do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era então um gê-
nero distinto (…). Depois, inteiriça era a forma de cada homem, com o dorso re-
dondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto
das mãos, dois rostos opostos um ao outro era um só, e quatro orelhas, dois se-
xos, e tudo o mais como desses exemplos se poderia supor. (…) Eram (…) de uma
força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham; mas voltaram-
-se contra os deuses (…) Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus: “Acho que te-
nho um meio de fazer com que os homens possam existir, mas parem com a
intemperança (…) eu os cortarei a cada um em dois (…). Por conseguinte, desde
que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria me-
tade e a ela se unia (…). É então de há tanto tempo que o amor de um pelo outro
está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua ten-
tativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. (189e, 190a-d, 191a,
191d)2 (Platão, 1995, p. 125-129)

A natureza do amor se transformou em uma coisa vulgar. Até mesmo quem se diz grande leitor, quase nunca discute sobre o amor. Desde os gregos, passando pela Bíblia e chegando até nós. Como citado acima, uma das mais belas passagens está nesse enigmático livro. Também conhecida como O Cântico dos Cânticos de Salomão. Muitos historiadores ainda têm dúvidas sobre essa autoria. Entretanto, poucas pessoas sejam cristãs ou não se debruçam sobre o antigo testamento.

Parece que aprendemos o medo de amar. Ou melhor, o apreendemos. Um excelente texto de Santo Agostinho nos remete a tal pavor: “Havia em mim um gravíssimo tédio da vida e medo de morrer. Creio que quanto mais o amava, tanto mais odiava e temia a morte, que mo tirara, como atrocíssima inimiga, e julgava que ela de repente havia de consumir todos os homens, já que pôde consumi-lo” (Agostinho, Confissões, IV, 6). Embora nesse texto o filósofo fale sobre o amor a um amigo perdido, ele tem grande relevância para nossa compreensão.

Nós temos medo. Medo de amar. Mas isso é natural. O que não seria é permanecermos com tal medo em nossa alma e dele fazermos uma fortaleza. Nada é mais prejudicial à nossa alma. Já em outra passagem sobre a Bíblia, Agostinho nos mostra uma referência a João, uma citação sobre o amor e o medo.

“Se não houver medo algum, o amor (caritas) não tem por onde entrar. A mesma coisa vemos quando costuramos algo, o fio se introduz por meio da agulha, mas se ela não sair, o fio não passa. Do mesmo modo, o medo é o primeiro a ocupar a alma (mentem), mas não é ele que permanece lá, porque ele só entra para introduzir o amor” (Agostinho, Homilias sobre a primeira epístola de João, IX, 4)